NOTAS DE QUEM CONSTRÓI · #012

US$ 149,5 bi em IA no trimestre: 94% dos negócios dividem só 11% do dinheiro

Enquanto a manchete falava em recorde trimestral, um relatório de venture capital mostrou pra onde foi quase todo o dinheiro de IA levantado no mundo.

Welly5 MIN

US$ 149,5 bi em IA no trimestre: 94% dos negócios dividem só 11% do dinheiro

Quando "recorde" quer dizer concentração

Se você lidera uma startup de IA no Brasil e leu a manchete de US$ 149,5 bilhões captados em IA só no segundo trimestre de 2026, a tentação é achar que a torneira de capital abriu de vez. Abriu para poucos. Para o resto, ela está mais fechada do que em 2025.

O dado vem do relatório trimestral State of AI da CB Insights, divulgado em julho de 2026 com base em rodadas fechadas até o fim de junho. O funding global em IA caiu de US$ 237,6 bilhões no primeiro trimestre, recorde histórico, para US$ 149,5 bilhões no segundo, uma queda de 37%. Até aqui, nada surpreendente: depois de um trimestre recorde, é normal esfriar.

O que muda a leitura é para onde esse dinheiro foi. Rodadas de US$ 100 milhões ou mais, as chamadas mega-rounds, foram só 6% dos negócios fechados no trimestre. E ficaram com 89% de todo o dinheiro: US$ 132,5 bilhões. Sobraram US$ 17 bilhões para os outros 94% dos negócios.

Fatia dos negóciosFatia do dinheiro
Rodadas de US$ 100 mi+6%89% (US$ 132,5 bi)
Todo o resto do mercado94%11% (US$ 17 bi)

O funding de IA não secou. Ele se concentrou num punhado de empresas de modelo e infraestrutura, e o resto do mercado compete por uma fatia cada vez menor.

Três das cinco maiores rodadas do trimestre foram só da Anthropic: US$ 50 bilhões, US$ 10 bilhões e US$ 5 bilhões. A Project Prometheus fechou uma Series B de US$ 12 bilhões, e a DeepSeek levantou US$ 7,5 bilhões numa Series A. Cinco negócios, US$ 84,5 bilhões: mais da metade do funding total do trimestre inteiro veio de cinco cheques.

O trimestre também produziu 37 novos unicórnios de IA, ante 32 no primeiro trimestre, levando o total global a 671. Dá pra ler isso como o mercado ficando mais largo. Só que a Ásia sozinha respondeu por 9 desses 37, 24% do total, acima da fatia de 15% que a região costuma representar historicamente. Até esse número de unicórnios novos está puxado por poucas praças e poucas rodadas grandes, e não por um número maior de empresas levantando capital pequeno ou médio.

Para quem opera fora do grupo de cinco ou dez empresas de modelo e infraestrutura, o trimestre não foi de fartura. Foi de disputa por uma fatia menor, com mais gente competindo por ela.

Faz sentido concentrar assim. Treinar e servir modelo de fundação em escala consome capital que nenhuma startup de aplicação precisa levantar: data center, chip, energia. Quem está nesse jogo levanta bilhão porque o custo de operar também é em bilhão. O problema é que a cobertura de imprensa trata o total do trimestre como um retrato do setor inteiro, e não é. É o retrato de cinco empresas, com o resto do mercado anexado embaixo.

O que isso muda pra quem constrói

A gente vê isso todo dia trabalhando com founders no Brasil: o discurso do boom de IA chega inteiro, e a régua que ele usa lá fora (funding disponível, avaliação alta, contratação agressiva) não bate com a realidade de quem não é a Anthropic. Startup de camada de aplicação, vertical de IA, ferramenta B2B com IA embutida: esse grupo está no lote de 94% dos negócios brigando por 11% do dinheiro.

Isso não quer dizer que captar ficou impossível. Quer dizer que o argumento "estamos no setor quente" parou de bastar. Quem levanta hoje, fora do topo do funil, precisa chegar com retenção, ARR ou pelo menos um piloto pago rodando, porque o investidor tem menos cheque disponível e mais empresa batendo à porta.

Na prática, dá pra tirar três coisas concretas dessa leitura pra segunda de manhã.

Primeiro, refaça o runway assumindo que a próxima rodada não vem, ou vem menor do que a anterior. Se o plano de 18 meses depende de uma Series A do tamanho da de 2024, o plano está desatualizado.

Segundo, troque narrativa de mercado por prova de ROI. Cliente pagando por um piloto específico pesa mais numa conversa de captação hoje do que estar surfando a onda de IA.

Terceiro, se o produto depende de treinar ou rodar modelo próprio, vale perguntar se dá pra não competir nesse jogo. As empresas levando os US$ 132,5 bilhões são as de infraestrutura e modelo de fundação. Construir em cima do que elas já oferecem, com foco no problema do cliente, custa menos caixa e tira você da disputa pela fatia de 11%.

No Brasil isso pesa mais, não menos. O cheque médio por aqui já era ordens de grandeza menor que o dos Estados Unidos antes desse trimestre, e nenhuma startup brasileira de IA disputa uma fatia dos US$ 132,5 bilhões. A pergunta que fica não é se você vai competir com a Anthropic por capital. É se o seu plano de caixa já assumiu que não vai, ou se ainda está escrito como se 2026 fosse repetir 2021.

É o caminho que a gente segue em diagnóstico e arquitetura de software antes de qualquer piloto de IA: entender onde o retorno aparece rápido, sem apostar o caixa numa rodada que talvez não venha do tamanho que o plano imaginava.

Fontes

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